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A força das palavras

Um dia, estando eu nos meus 16 anos, resolvi escrever um conto para um concurso. Foi a primeira história digna desse nome. Passava-se num ambiente de guerra. Para a escrever vesti a pele de um soldado e embrenhei-me nos seus pensamentos. Escrevi, ainda com caneta e papel, o texto, do princípio ao fim, sem parar.

Quando acabei, senti uma sensação estranha. A história tinha entrado dentro de mim e marcou-me profundamente. Tinha feito crescer em mim um sentimento anti-belicista mais forte do que já tinha. Escrevi um poema feroz contra a guerra. E resolvi concorrer com ele ao mesmo concurso, que também contemplava esta vertente.

Não vou falar do resultado do concurso, mas da estranha sensação da força que as palavras ganharam quando passaram para o papel. Nunca consegui escrever uma história sem a viver. E quando a acabo, as palavras escritas passam a fazer parte de mim, perseguem-me para sempre, como fantasmas.

Sempre me assustou esta excessiva dependência, estes fantasmas. Talvez por isso tenha deixado de escrever histórias durante mais de dez anos, até ganhar maturidade para conseguir conviver com eles.

Comentários

nunca consegui alinhavar palavras, quanto mais escrevê-las.
tenho alturas em que consigo encadear umas palavras, mas só na minha cabeça. na hora de passar para o papel, nikles, vai tudo embora. já tentei ter papel à mão, mas perco-me. gravar ainda pior. ouvir a minha voz a falar sozinha, é uma coisa estranha.
o que me resta, é ler o que os outros escrevem e admirar essa capacidade. se gosto ou não, é irrelevante.
se agora consegues ecrever sem medos, avança. cá virei para te ler.
um beijo e bom fim de semana.


lima,
eu discordo, acho que todos temos essa capacidade, de escrever o que nos vai na cabeça, podemos é ter mais ou menos disponibilidade, pode o que escrevemos ter mais ou menos interesse, podemos estar mais perto ou mais distanciados daquilo que escrevemos. Mas quem sabe ler, também sabe escrever, independentementei do impacto desejado ou conseguido do que escreve (exceptuam-se desta análise a maior parte dos políticos ;-) ).


Jorge,
Concordo contigo quando dizes que te deixas envolver demasiado com o personagem que escreves. É natural, se assim não fosse não sentirías aquilo que escrevias, mas atenção, depois da escrita liberta-te do personagem, por que esse, já não é mais teu mas sim, de quem o lê e o interpreta. Desculpa a intromissão. Um abraço.


soslayo,
concordo, eu liberto-me, especialmente quando não me identifico com a personagem. Mas quando concordo, por vezes, essa presença torna-se muito forte.


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