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10 de Agosto

10 de Agosto é dia de São Lourenço. Já sei que estão a estranhar esta minha súbita iniciativa pró-católica, mas passo a explicar.

Eu nasci em Luanda, Angola, no longínquo ano de 1972. Antes de completar dois anos vim para Portugal, passando a morar na aldeia onde nascera e vivera até aos 18 anos a minha mãe: São Lourenço, no concelho de Chaves. Uma aldeia pequena, a uns 7 quilómetros de estrada de Chaves, ou a uns 4, caso se opte pela velha calçada romana degradada. Existe também uma pequena ponte romana de apenas um arco a atravessar o pequeno ribeiro, próximo da minha casa.

Desde há algum tempo que não estou lá no dia da festa. Prefiro gozar férias na primeira quinzena de Agosto e ir lá festejar o aniversário do meu pai, na segunda quinzena. Por isso, a uns 700 quilómetros de lá, aproveito para relembrar um pouco este dia noutros tempos.

Em Agosto, a aldeia cresce. Os emigrantes voltam, fazendo a população crescer de forma abrupta. Tenho alguma família em França, Suiça, Andorra, Estados Unidos, que só revejo neste mês. E a festa serve para todos conviverem, é um ponto de encontro para aqueles que ainda não tiveram oportunidade de se reencontrar.

No dia 9, por volta das 9:30 da noite, era a procissão das velas. Depois começava o baile da véspera. Quando não havia dinheiro para ter um conjunto as duas noites, havia música com um gira-discos (aquilo que existia antes dos leitores de CD, para os mais novos).

No dia 10, de manhã, havia a missa, onde ouvíamos a história do martírio de São Lourenço, queimado numa grelha. As mulheres aproveitavam para estrear e comentar as roupas novas. Os rapazes novos aproveitavam para micar as raparigas novas, sob o olhar atento dos pais destas. O padre anunciava, no fim da missa, os contributos monetários maiores para a igreja.

Acabada a missa, começava a procissão, com vários andores. Inicialmente adornados com dinheiro, foi-se perdendo essa uso, muito por oposição de um padre. A procissão percorria a aldeia de alto a baixo, acompanhado pelos habitantes. Algumas casas colocavam as toalhas de renda na varanda. Os cafés fechavam a porta à passagem da procissão.

Ao almoço, não podia falta um cabrito assado. Depois, era hora de ir ouvir a banda tocar (a mais conhecida era a banda "Os pardais"), intercalada com o conjunto. À volta instalavam-se algumas barracas e mesas de jogo. Reviam-se as pessoas convidava-se a ir beber um copo lá a casa, ou então a jantar, porque há sempre lugar para mais alguém na mesa. De vez em quando houvia-se o fogo de artifício. Quando algo corria mal, a população acorria logo a dominar o fogo.

Depois do jantar, vinha a noite. O baile durava até às 2 da madrugada. Pelo meio, mais fogo de artíficio pintava o céu de cores vivas. Muitos namoros começavam, outros se desfaziam, uma zaragata ou outra acontecia no meio dos encontrões. As raparigas, sob a vigilância apertada dos pais, tinham de saber esgueirar-se, ou com a ajuda de uma prima ou de alguém de confiança. Depois, uns voltavam para casa, outros ficavam mais um pouco.

E assim, acabava a festa, com vultos caminhando pela aldeia, alguns de mãos dadas ou abraçados, escondendo-se nas sombras, outros em grupo a caminho de casa, e ainda alguns ziguezagueando e cantando na esperança de estar no caminho certo para casa.

E do santo, razão da festa, ninguém mais se lembrava, até ao ano seguinte...


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