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Encanecer - contributo do AdamastoR

O AdamastoR, do blog substrato também me enviou o seu contributo. Devo dizer que, independentemente de ter gostado muito dos outros, este tocou-me de uma forma especial, ou não fosse eu transmontano. Muito obrigado.

Bô. Bamos ó riue, ó caraí!?

Cheguei da terra.

Quatro dias na aldeia de Guide, perto da vila de Torre de D. Chama, chegaram para descansar e rever familiares - a minha afilhada Joana, já com dez anos - e lugares que marcaram para sempre a minha existência. Foi um mergulho na mais reconfortante nostalgia.

Há sítios por onde o tempo parece não passar, não fosse o envelhecimento ou crescimento das pessoas e a degradação das casas. As outras diferenças são as vivendas dos emigrantes regressados, que parecem cogumelos reluzentes à volta das árvores [e não falo das parabólicas que lhes enfeitam os telhados] e o menor número de crianças. Há muito menos miúdos que há quinze ou vinte anos atrás.

De resto, a aldeia onde nasceu o meu pai mantém exactamente o mesmo aspecto. Hipertenso e nervoso, porque "a idade não perdoa", o meu pai fica outro, fica novo, assim que põe aqui os pés. Revê o irmão Orlando, os sobrinhos, os amigos de sempre que ainda estão vivos e regressaram de França. Ficaram-lhe aqui as raízes e avivam-se as recordações. A escola primária onde andou é agora um casebre abandonado, cercado por areia fina e um baloiço com ferrugem, mas ainda lá estão os 'graffittis' que pintou a óleo de bateria. O rio onde insistiu em aprender a nadar tem agora menos água, menos alfaiates irrequietos, menos peixes, mas lá continua aquela cachoeira pequena, onde a mãe e as tias lavavam a roupa. A Igreja vazia, com a chave na porta, com as mesmas ripas de madeira comprida no chão e a mesma humidade, a mesma penumbra misteriosa, por mais calor que esteja lá fora e sol que entre pelos vitrais.

Lá em baixo, depois do cemitério, no .concelho. - como chamam à parte antiga da aldeia - os patos continuam a passear-se em fila nas ruelas empedradas, ensolaradas e vazias. O mesmo doido inofensivo contorce-se e resmunga enquanto anda, ou fica especado a rir para nós, como se nos reconhecesse ou quisesse conversar. Do interior dos portões, sai o mesmo cheiro a animais, embora seja menos frequente, porque a maior parte dos cavalos e das mulas de carga foram substituídos por tractores - restam os porcos e as galinhas. As amoras silvestres continuam apetitosas, a tingir os caminhos e os dedos. As andorinhas, aos milhares, que cobrem os fios eléctricos por cima dos telhados, substituem as multidões a que estou habituado na cidade. À beira do rio Tuela lá está o barulho característico dos motores das bombas de água que regam as .olgas.. As pessoas continuam a dedicar-se, essencialmente, ao trabalho da terra. Ou fazem-se pagar pela .jeira. àqueles que, regressados de França, se acham mais importantes que isso. Em Guide, continuam a fazer-se vinho, azeite, alheiras e presunto, a dar-se abóboras gigantes aos porcos, a .encavar-se. cebolas e a reunir-se milhares de batatas nos .baixos., de modo a chegarem para o ano todo. Nos terrenos à volta das casas, ou no .canal., há ainda .chícharos. e feijão verde, .cerdeiros., figos, pêssegos, maças, couve .tronchuda., uvas e ameixas. O resto .não está na época.. E alecrim aos arbustos, intercalados pelas silvas. Uns cheiram bem à passagem dos dedos, outras arranham as pernas dos mais distraídos, como eu. Os pirilampos ainda brilham como se fosse um truque de magia e as cigarras cantam cada vez melhor, como se estivessem num festival. As moscas e o calor continuam quase insuportáveis, mas não conseguem evitar que as saudades apertem, assim que se chega a Lisboa.

Ele vai estar sempre em Guide. E eu também.


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