Encanecer
Já por várias vezes referi a minha infância numa pequena aldeia transmontana. De um modo geral, as pessoas tiravam da terra e da criação o sustento para a mesa. Se tivessem outra actividade, conseguiam ter mais algum dinheiro para outras coisas. A actividade primária ia subsistindo, muitas pessoas só iam à cidade de Chaves, a uns 7 quilómetros, às quartas-feiras, dia de feira. E mesmo assim, muitos iam a pé, de modo a poupar algum dinheiro. Como o meu pai trabalhava em Chaves, por vezes pediam-lhe boleia, mas não deixavam de lhe oferecer um coelho, uma galinha ou alguma coisa da horta.
O dinheiro era gasto apenas em coisas necessárias: roupa, utensílios da casa e alguma comida que não fosse produzida em casa. Tinta para o cabelo era um luxo, que quase ninguém se atrevia a comprar. Os homens não podiam usar, ou eram olhados com alguma desconfiança. As mulheres casadas não deviam gastar dinheiro em coisas desnecessárias, para além de deixarem os maridos mais ciumentos. Assim, a partir de uma certa idade, eram os cabelos brancos que povoavam as cabeças da maior parte das pessoas. E as rugas povoavam a face, dado que não havia dinheiro para cremes anti-rugas.
Não sei se foi por estar habituado a ver os cabelos naturalmente brancos, estranhava quando via alguém com os cabelos pintados, parecia-me tão pouco natural como as perucas em cabeças calvas. Talvez as cores fossem menos naturais do que agora, mas na altura não achava bonito.
Talvez por a minha mãe ter deixado os cabelos encanecer naturalmente, sem o pintar, eu nunca percebi o trauma que o aparecimento deles provoca nas pessoas (especialmente nas mulheres). A minha avó, para além dos cabelos brancos, tinha a cara enrugada, mas bonita, nunca deixou de o ser.
Lembro-me que se devia respeitar os cabelos brancos das pessoas. Quanto mais brancos fossem os cabelos, mais respeito mereciam essas pessoas, porque eram sinal da sabedoria, da vivência. Lembro-me de, quando alguém queria mostrar que era mais experiente, dizer:
- Eu já tenho demasiados cabelos brancos na cabeça para me virem dizer como devo fazer as coisas.
Hoje, tendemos a esconder tudo: os cabelos brancos, as rugas, a nossa forma de ser. É claro que os cabelos brancos e as rugas são pouco graves, mais uma questão de auto-estima. Já quando escondemos a nossa forma de ser, entramos num jogo perigoso de dissimulação, em que a todo o tempo podemos ser descobertos.
Eu não tenho medo de envelhecer, penso que é a ordem natural das coisas. Não são as rugas ou os cabelos brancos que, aos 32 anos, já povoam em razoável quantidade a minha cabeça, que me apoquentam. O que me preocupa mesmo é que esses cabelos brancos não mereçam o respeito que eu dediquei a outros cabelos brancos. Eu faço o que posso para merecer esse respeito, por muito que algum cinismo que noto no mundo actual me dificulte esta tarefa, mas temo sempre ser demasiado fraco para suportar o peso. Paradoxalmente, penso que este temor pela fraqueza é a minha grande força.
--------