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12.ª semana, 6.º dia - o blog convidado da semana

Em Portugal é noite, manhã em Macau, Noite em Macau. Não é essa noite que nos faz recolher diariamente, mas a Noite, autora de um blog escrito num local longínquo, para onde somos transportados pelos seus belos textos.

Muitas vezes, quando os leio, sinto-me a respirar os mesmos odores que ela sente, envolvido nesse mesmo ambiente asiático com alguns retoques portugueses que ela nos descreve. Convidei-a hoje a escrever no meu blog, assim como ela me convida, através da leitura do seu blog, a conhecer o recanto onde vive o seu dia a dia. Ler o seu blog aumentou em mim a vontade que já tinha de conhecer Macau. Isso acontecerá um dia, ad tempus.

As passagens da Noite por Macau

Era o meu irmão muito pequenino e costumava dizer .eu quero ir à China.. Na altura ir à China era algo tão impraticável, que fazíamos um sorriso compreensivo, como quem acha piada ao miúdo que não tem noção do que o mundo é.

Alguns anos passados e o meu irmão concretizou o seu sonho, quando num dia quente de Setembro aterrámos no já desaparecido aeroporto de Kai Tak em Hong Kong. Esse dia nunca se apagará da minha memória, como se de um filme se tratasse. Quando saímos do avião rumo ao autocarro que nos iria transportar ao terminal do aeroporto sentimos um calor abrasador, um ar irrespirável, um cheiro estranhíssimo. Olhar em volta era intimidante: as pessoas, os sons, a linguagem, tudo era diferente. Senti-me como se estivesse num sonho, daqueles de que apetece acordar depressa. A travessia de Hong Kong, a viagem de barco, a curta visão do caminho em Macau não foram de modo algum grandes auxílios para o fim da minha sensação de pesadelo.

Nos dias que se seguiram, as minhas descobertas sobre o território foram-se alargando, mas as experiências dos primeiros dias não foram mais agradáveis que as da chegada. Percorri ruas com dois dedos a tapar o nariz porque não suportava os cheiros, senti o que era realmente ter calor, aprendi que as praias podiam ter água castanha e areia preta, conheci hábitos muito diferentes dos meus, percebi que a falar podemos não nos entender. Do que me lembro, a única coisa de que verdadeiramente gostei foi da comida chinesa!

Naqueles dois primeiros anos não sei dizer se fui feliz. Creio que não. Senti-me sempre uma estranha numa terra estranha. Nesse tempo não amei Macau. Não se ama Macau em apenas dois anos. Para amar esta terra é preciso conhecê-la, percebê-la, encontrar-lhe o sentido. E eu não o encontrei. Durante esses anos fui apenas uma passageira que ansiava o fim da sua viajem para poder voltar para a sua terra e para os seus.

Sem beber a água do Lilau*, voltei a Macau dois anos depois, desta feita para a amar. Pouco foi novidade, pelo que rapidamente me adaptei. O meu olhar sobre as coisas era outro e assim descobri o que estava à minha volta e percebi o seu sentido. A distância e a saudade acompanharam-me sempre, mas aprendi a conjugá-las com as coisas boas que aqui fui descobrindo e construindo. Voltei a Macau para aprender a amá-la. Aprendi que aqui se pode ser feliz!

Como não há duas sem três, voltei a Macau pela terceira vez. Creio que neste momento sinto por esta terra um misto de amor e estranheza. Porque eu mudei, porque ela mudou. Amo Macau, mas já a amei mais do que a amo hoje. Há lugares onde não devíamos voltar, para que a realidade não atraiçoe a nossa memória.

* água da Fonte do Lilau, água de nascente da qual se dizia que quem dela bebesse voltaria a Macau.


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