11.ª semana, 6.º dia - o blog convidado da semana
No entanto, algo está errado, no mundo real. Sendo o mar tão belo, na minha modesta opinião, deveria ser feminino. Felizmente, na blogosfera, este erro foi corrigido, e temos a Mar, plena de maresia tornada poesia, reflectindo a beleza das suas palavras pelo Espelho Mágico.
E hoje, a Mar veio encher este meu blog de odores, imagens, sons, sabores e sensações marinhas. Usem os cinco sentidos e deixem-se arrastar com as suas palavras...
O muro
Do outro lado do muro estava o mundo. E nunca o tinha atravessado. Ainda não reunira a coragem suficiente para o subir a pulso, um pé aqui, numa saliência da pedra coberta de musgo verde, outro mais acima, os dedos bem seguros numa ranhura, a força de braços, um impulso e enfim, o topo, a parede plana e o horizonte do outro lado, a perder de vista. Não que soubesse como era, mas imaginava que seria assim: a grandeza infinita e azul. Parecia-lhe que haveria de ser azul não sabia bem porquê, talvez porque o seu olhar apenas conseguia ver o céu e essa cor e por isso imaginava que, do lado de lá, o azul se estenderia a tudo o resto.
Sonhava todos os dias com o momento em que pousaria os braços no topo do muro e lá se deixaria ficar, em êxtase, em contemplação. Talvez depois se sentasse. As pernas penduradas já do lado de lá, a balançar, as mãos no regaço ou estendidas para o céu, tão altas que quase tocariam as nuvens. Ficaria ali muito tempo. Sentada, a recuperar o fôlego, à espera que o coração parasse de bater em galope louco, resultado de um misto do esforço dispendido na subida e da ansiedade que a consumia. Dividida entre o medo do desconhecido, e o desejo de desvendar os seus mistérios.
Certa vez, ousara subir para duas ou três das enormes lajes que compunham o muro, a perder de vista em direcção ao céu. Mas não mais que isso. Sabia que, no dia em que se decidisse, já não haveria volta atrás. A subida teria que ser de sentido único, irreversível. Seria o dia em que, deixaria de ser quem era para passar a ser quem sempre tinha querido ser. Aquela por quem esperara toda a vida. Quieta, ali, enclausurada na arena plana delimitada pelo muro, naquele espaço à sua medida, onde estava desde que se conhecia e onde, aos dias azuis se sucediam as noites e as estrelas, num calendário que ela seguia religiosamente, para nunca esquecer quanto tempo passara. Desconhecia tudo o que estava para além destes seus dias, do regato cristalino onde se banhava, dos frutos de que se alimentava, desta espécie de redoma onde existia com tranquilidade e segurança. Mas sem magia. Às vezes, encostava-se às paredes de pedra fria, ao musgo fresco com cheiro de terra, fechava os olhos e deixava que despertassem todos os outros sentidos. Aspirava com deleite o aroma que adivinhava do lado de lá, a flores e a maresia, ouvia o piar aflito de um pássaro mais incauto que por vezes embatia no muro, sentia com a palma das suas mãos suaves a rugosidade da pedra. Colava todo o seu corpo ao muro, como se quisesse, dessa forma, abraçar o mundo que estava do outro lado. Tão próximo...
Uma noite, àquela hora em que a aurora já risca de fogo o escuro do céu, acordou em sobressalto. Mais que o estrondo, o barulho, tinha sido o tremor no seu peito o que a havia despertado. O pressentimento. E quando se ergueu, ainda confusa, olhando em redor, não viu o muro. O círculo de céu azul que todos os dias via sobre a sua cabeça, tinha crescido para todos os lados, rodeava-a, estendia a mão, receosa ainda, e tocava a imensidão. Deu alguns passos hesitantes, depois mais um e foi então que o viu. Estava ali de pé, parado, imponente como uma estátua de sal, contra o brilho do sol acabado de nascer, que a ofuscava. Numa mão trazia duas flores silvestres e no olhar, a força com que havia conseguido derrubar, uma por uma, as pedras do muro com que a vida a tinha aprisionado.
Sem nada dizer, encarou-o com o seu olhar transparente e deu-lhe a mão.
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