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9.ª semana, 6.º dia - o blog convidado da semana

Um pouco mais de Azul é um blog que eu já referi aqui, num texto chamado Revolução tranquila.

É certo que as revoluções raramente são tranquilas. E este blog, surgido a meio de uma tese de doutoramento, acaba por conseguir ser, por vezes, tranquilo, outras vezes, como a autora define, o seu saco de boxe. Tudo passou por lá...

Agora a tese de doutoramento está a chegar ao fim (foi esta uma das razões porque só agora lhe pedi um texto). Espero que o blog não siga o mesmo caminho, pois iria fazer-me muita falta, assim como aos outros leitores assíduos.

Obrigado por existires e por me teres dado um pouco mais de azul...

O meu quintal

As histórias que o Jorge todas as semanas nos conta costumam ter um denominador comum, o campo, o que as torna especialmente atraentes para mim, que sempre vivi na cidade e não possuo raízes aldeãs.

As minhas memórias de brincadeiras de criança têm como palco o velho quintal de casa dos meus pais . quintal à moda dos prédios de há uns quarenta e tal anos, que reservavam a parte de trás para uns pequenos pátios, um para cada andar, com canteiros e um galinheiro (raramente ocupado, diga-se de passagem). O nosso ligava-se ao da vizinha, e entre um e outro andávamos de bicicleta, saltávamos à corda, brincávamos no baloiço, enfeitávamo-nos com brincos de princesa ou apanhávamos .bolinhas. dos cedros, que nos deixavam as mãos perfumadas. Aí aprendemos como as plantas cresciam, com a ajuda de uma grande oliveira que recordava o tempo em que aquela zona da cidade fora coberta por olivais. Graças a uma aula paterna sobre caroços e sementes, uma nespereira veio a nascer, e nunca houve nêsperas melhores do que aquelas, que cresciam sem adubos nem pesticidas, tal como não existiam morangos mais suculentos e saborosos do que uns, pequeninos e feios, que outra experiência .agrícola. tinha feito crescer num canteiro.

Nesse quintal passávamos as tardes de sol, a minha irmã e eu. Sobretudo quando apareceram os gatos. A história é banal: uma gata aparece com gatinhos, os vizinhos do prédio compadecem-se dos animaizitos e começam a deixar-lhes comida, num repente os quintais passam a ser vistos pelos bichanos como a sua própria casa. A mãe gata e a sua primeira geração de filhotes por ali ficaram durante vários anos, para grande alegria minha, que sempre tinha querido ter um cão ou um gato, sem que os meus pais atendessem ao meu pedido. Os gatos não entravam em casa, por proibição da minha mãe . mas subiam as escadas numa alegria, sempre que ouviam abrir a porta das traseiras. Enquanto a minha mãe estendia a roupa, um dos gatos roçava-se nas suas pernas incessantemente, ronronando. Se era hora de comer, juntavam-se todos, como se estivessem esfomeados, junto ao prato que lhes levávamos. Chegou a haver onze gatos ao mesmo tempo a morar entre a nespereira, os cedros e a velha oliveira do quintal.

Mas um quintal feito de cimento, nas traseiras de um prédio, mesmo cheio de gatos, não substitui o campo, o ambiente da aldeia, os cheiros vindos da terra. E por isso, sinto a nostalgia de uma ruralidade que não conheci. É possível sentir saudades daquilo que nunca tivemos.


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