O comboio
Ainda me lembro, como se fosse agora, o meu ano de estágio na sede da empresa. Na cidade onde eu vivia, havia uma delegação, mas os estágios tinham todos de ser feitos na sede, a 300 quilómetros de casa. Todos os domingos de tarde, embarcava no comboio rápido, numa viagem de três horas, voltando sexta-feira, ao fim da tarde.
O primeiro mês correu sem sobressaltos. A partir do segundo mês, apareceu ela. Apanhava, invariavelmente, o mesmo comboio, tanto na ida como na vinda. Olhei para ela sem conseguir desviar o olhar, morena de olhos escuros, cabelos longos ondulados, semblante triste e ausente.
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Aquele foi o ano em que a maior tristeza abalou a minha vida: a lenta morte do meu pai. Todas as sextas-feiras, à tardinha, apanhava o comboio, que me levava até à terra onde nasci e o meu pai vivia. Ao domingo, também de tarde, voltava à minha cidade de adopção. Eram fins de semana sofridos, mas também de redenção, após quase 3 anos em que não nos falámos. Tanto tempo perdido.
Nos dois primeiros meses, fazia as viagens alheada do que me rodeava, como se fosse a única pessoa a viajar naquele comboio. Até que, um dia, reparei num homem que me olhava discretamente. Os olhos verdes, sob uns óculos que lhe davam um certo ar de intelectual, cabelo castanho claro liso. Tinha um ar confiante, de alguém que sabia o que o futuro lhe reservava.
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Nos primeiros tempos, penso que ela nem reparou em mim. Eu olhava e imaginava o que tornava o seu olhar triste. Inclinava-me mais para uma paixão não correspondida. E pensava que era uma pena uma jovem tão bonita sofrer de paixão.
Passado algum tempo, vi que ela começou finalmente a reparar em mim. Desviava o olhar, levemente, de modo a não deixar que ele fixasse o meu. Foi a partir daí que comecei a sentir alguma mudança nela. O ar triste começou a ser substituído por um sorriso, inicialmente embaraçado, mais tarde repleto de sensualidade.
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Nos primeiros tempos, ficava um pouco embaraçada com aquele olhar. Por vezes, os lugares permitiam-nos ficar no campo de visão do outro, outras vezes não. Nestas vezes, levantávamo-nos várias vezes e circulávamos pelo comboio, de modo a podermos passar em frente um do outro. E a primeira coisa que fazíamos quando chegávamos ao comboio era saber onde estava o outro.
Com o tempo, comecei a sentir-me mais ousada. Comecei a escolher roupa mais sensual para a viagem, e comecei a ganhar coragem para abrir e direccionar o meu sorriso. Não sei o que pensava, não estava à espera que acontecesse alguma coisa, mas sentia-me bem com aquele jogo de olhares cruzados e com o silêncio acolhedor do outro lado. Estava sempre com medo de um som saído dos seus lábios arruinar para sempre o jogo dos sentidos.
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Ela começou a ficar mais solta, com o passar do tempo. Olhava-me, provocadoramente, mas ao mesmo tempo de forma a inibir qualquer tentativa de aproximação da minha parte. E eu, qual cachorrinho obediente obcecado por obter a atenção da dona, não contrariava aquilo que parecia ser o seu desejo.
Um dia, uma sexta-feira, finalmente, quis o destino que ficássemos lado a lado. Era um dos últimos dias do estágio. Foi uma viagem silenciosa, em que quase não conseguimos olhar-nos. Fui reparando nos pormenores, na pele, no perfume, nos objectos que trazia consigo, onde se destacava um CD dos U2. Só quando saímos é que nos olhamos de frente, talvez uns 30 segundos, e ouvi finalmente a sua voz doce:
- Até à próxima.
Já não me lembro o que respondi, mas senti o coração bater aceleradamente, como se finalmente este assumisse a vontade de explodir.
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Às vezes o destino prega-nos partidas. Numa sexta-feira, finalmente, ficamos lado a lado. Eu ia sentindo a forma como ele me olhava, me percorria. Vi como olhou para tudo, incluindo o CD dos U2 que levava comigo. No fim da viagem, decidi que queria conhecer o som da voz dele e disse:
- Até à próxima.
Ele não esperava. Meio engasgado, lá disse:
- Até Domingo.
Mas Domingo o meu pai morreu, após meses de sofrimento. Acabei por ficar, nos 15 dias seguintes, tratando dos vários assuntos burocráticos inerentes ao seu falecimento. Mas, em grande parte, o meu pensamento estava naquele comboio, nele.
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Tinha decido que, naquele Domingo, iria falar com ela, custasse o que custasse. Mas ela não apareceu. Nem na semana seguinte. Entretanto, acabou o estágio, e nunca mais a vi, nem sei o que lhe aconteceu. Passados 3 anos, continuo a pensar nela, nos tempos em que as viagens eram um momento de alegria para mim...
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Quando voltei, ele não estava. Percorri todas as carruagens, mas ele não estava em nenhuma. Procurei-o na estação, na sexta-feira seguinte, e nem sinal dele. Pensei que o perdera, para sempre...
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Tenho a certeza que a vou encontrar. Consegui um bilhete para o concerto dos U2. Sei que ela vai lá estar. Ela tem de lá estar. E eu não descanso enquanto não a encontrar.
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Ele vai lembrar-se, de certeza. Ele não pode ter deixado de reparar no CD dos U2. Já tenho o bilhete. Havemos de nos encontrar, custe o que custar.
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