Só há 3 formas de viajar num elevador: sozinho, acompanhado por pessoas conhecidas ou acompanhado por estranhos.
Nos dois primeiros casos, aproveita-se o espelho para arranjar a roupa, o cabelo, até retocar a maquilhagem. No 3.º caso mira-se de esguelha os companheiros de viagem. E tudo é possível, quando se tem um elevador com 50 andares.
E perguntais vós, curiosos leitores, quem sou eu para me achar perito em elevadores? Bem, isso é uma longa história. Se tiverdes paciência para a ler, eu vou contá-la.
Em miúdo, pouco antes de entrar para a escola, fui viver para um edifício com 50 andares. Eu morava exactamente no último, fazia a viagem completa. Fiquei fascinado com o elevador. Era a minha brincadeira diária, subir e descer o elevador, ver pessoas entrar e sair.
A primeira vez que me viam ficavam de pé atrás e olhavam disfarçadamente. Depois, já me conheciam e agiam naturalmente. Tinha a D. Rosa, que usava vários chapéus espampanantes, que ajeitava a aba sempre que entrava, e a sua filha Inês, que fazia o laço no vestido. O Sr. Zé tirava o pente da meia e penteava o bigode e o cabelo.
A Luísa e o seu namorado Quim faziam cara de chateados quando viam que eu estava lá.
E assim, passaram anos, e o elevador continuou a ser a minha paixão. Cheguei aos 10 anos. A minha mãe achou que eu precisava de perder a mania do elevador. Por isso, proibiu-me de andar nele quando não fosse necessário.
Em vez de andar de elevador, vim para a entrada do prédio, triste. Um senhor de idade quis saber o que se passava. Eu contei-lhe a história. Ele deu-me um anel. Disse-me que era mágico e que me permitiria estar no elevador sem ser visto. Só tinha que o colocar e tocar no espelho.
Eu assim fiz e, magia das magias, passei para o interior do espelho. Quando queria sair só tinha de tocar na parte interior do espelho. E assim, a minha mãe nunca me descobriu.
Os anos foram passando. Comecei a descobrir coisas novas. As pessoas, pensando estar sozinhas, agiam de forma diferente. A D. Rosa aproveitava para ajeitar o forro da saia. A Inês, já grande, aproveitava para realçar o decote do vestido. O Sr. Zé, para além das habituais penteadelas, coçava ainda a orelha e tirava macacos do nariz. E também descobri por que razão a Luísa e o agora marido Quim ficavam chateados quando me viam.
E assim, muitas aventuras novas vivi naquele elevador, agora sem ser visto. Aprendi a conhecer as pessoas melhor, os seus hábitos, a sua forma de ser. Muitas vezes olhavam o espelho fixamente, como se pressentissem a minha presença. E eu olhava-as nos olhos e conseguia ler o que lhes ia na alma.
Até que veio o dia fatal. A Luísa e o Quim, como habitualmente, pararam o elevador no 20.º andar, que sabiam ser desabitado, e deixaram a paixão tomar conta dos seus corpos, numa entrega desenfreada. Com o ardor, bateram forte no espelho, o que fez com que o anel me caísse do dedo e rolasse para o lado de fora do espelho. E agora, como é que eu poderia sair?
Tentei gritar, na esperança de que me ouvissem. Mas nada. Quando viu o anel, o Quim pegou nele e levou-o consigo. Pensou que alguém o tivesse perdido. E assim, fiquei para sempre preso.
Nunca mais ninguém soube de mim. Ninguém desconfia que eu sou o espelho do elevador. E quando, na suposta solidão, as pessoas me revelam as suas facetas, tiques e fantasias, eu devolvo-lhes a imagem daquilo que gostariam de ser. E quando saem do elevador, vão mais felizes consigo mesmas.
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